Estou, mas já fui embora.

Há momentos em que a presença se torna apenas formal. O corpo permanece, cumpre horários, ocupa espaços; mas algo essencial já não está ali. Quem nunca se sentiu assim: esvaziado, sem função na vida, no trabalho, na família? Quem nunca teve a sensação de que lhe arrancaram o gosto pela existência, pela possibilidade simples de respirar o ar, sentir o sol na pele, caminhar entre os demais e experimentar alegria apenas por estar ali?

Para muitos, a vida é uma dádiva. Há agradecimentos rotineiros, por tudo, pelo pouco, pelo muito e, às vezes, até pelo nada. Essa parece ser uma virtude rara: a capacidade quase sobrenatural de ser grato, mesmo quando o cenário não oferece grandes razões.

Mas, infelizmente, para outros, a vida é cruel. Não necessariamente porque lhes falte a capacidade de agradecer, mas porque o arranjo da própria existência lhes foi imposto de forma tão dura, tão marcada por dores, mágoas e problemas, que a imersão no sofrimento acaba por turvar o olhar. Torna-se difícil, quando não impossível, visualizar aquilo que ainda poderia ser motivo de gratidão.

Qual é, afinal, o nosso propósito? Sofrer? Ruminar problemas? Dizem que todos sofrem, e talvez isso seja verdade. Contudo, a realidade insiste em mostrar que alguns sofrem mais do que outros, de maneira mais profunda e prolongada. E assim seguimos vivendo ou apenas existindo.

Neste mundo, há muitos que permanecem de pé, que falam, trabalham e sorriem, mas que, por dentro, já partiram há muito tempo. Estão presentes, mas ausentes. Estão, mas já foram embora.

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