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Estou, mas já fui embora.

Há momentos em que a presença se torna apenas formal. O corpo permanece, cumpre horários, ocupa espaços; mas algo essencial já não está ali. Quem nunca se sentiu assim: esvaziado, sem função na vida, no trabalho, na família? Quem nunca teve a sensação de que lhe arrancaram o gosto pela existência, pela possibilidade simples de respirar o ar, sentir o sol na pele, caminhar entre os demais e experimentar alegria apenas por estar ali? Para muitos, a vida é uma dádiva. Há agradecimentos rotineiros, por tudo, pelo pouco, pelo muito e, às vezes, até pelo nada. Essa parece ser uma virtude rara: a capacidade quase sobrenatural de ser grato, mesmo quando o cenário não oferece grandes razões. Mas, infelizmente, para outros, a vida é cruel. Não necessariamente porque lhes falte a capacidade de agradecer, mas porque o arranjo da própria existência lhes foi imposto de forma tão dura, tão marcada por dores, mágoas e problemas, que a imersão no sofrimento acaba por turvar o olhar. Torna-se difícil,...

A Falência do Afeto: Quando o Medo Substitui o Cuidado

 Há uma lição silenciosa que muitos adultos demoram a compreender: o afeto que não foi dado no tempo certo, provavelmente nunca virá. E quando chega — se é que chega — já não preenche o mesmo vazio. Em muitas famílias marcadas por tradições rígidas, onde o valor da reputação supera o valor das relações, há uma tendência preocupante:   a forma se torna mais importante que o conteúdo. A imagem da família perfeita, ordeira, “de respeito”, passa a valer mais do que o cuidado real com seus membros. E assim, na tentativa de construir um modelo familiar que se sustentasse diante do olhar social, muitos pais, mães, tios, avós e irmãos mais velhos   esqueceram-se de olhar nos olhos. A preocupação com o escândalo, o vexame, o “o que vão dizer” tomou o lugar do abraço, da escuta, da validação emocional. Foi assim que muitos de nós fomos criados: mais por medo do que por amor. O silêncio virou regra. O choro, fraqueza. O erro, desonra. O respeito, confundido com obediência...

Onde termina um dia comum

Há cerca de um mês, presenciei uma cena que ainda me visita em silêncio. Um ambulante foi atropelado no centro da cidade. Quando passei por ali, ele já estava estirado no chão, imóvel. A vida havia sido interrompida de forma abrupta, quase banal, como se alguém tivesse fechado um livro no meio de uma frase. Imagino que, naquela manhã, ele tenha tomado café. Talvez tenha se despedido da família com um “até logo”, ou desejado um bom dia a algum conhecido. Pode até ter feito planos. E então, no meio da rotina comum, sua história foi cortada. O que me deixou inquieto não foi apenas o acidente em si, mas o que veio depois. No dia seguinte, tudo estava limpo. A rua seguia viva, os passos continuavam, o comércio abria suas portas, os carros buzinavam como sempre. Talvez alguém tenha comentado: “aqui morreu um homem ontem”. Mas, no geral, a vida seguiu como se nada tivesse acontecido. E isso me faz pensar no tamanho da nossa presença neste mundo. No quanto somos, ao mesmo tempo, importante...